Alegação falsa de Putin sobre captura de cidade expõe ritmo lento da Rússia

Presidente russo Vladimir Putin em Moscou  • 28/1/2026 MAXIM SHIPENKOV/Pool via REUTERS

É a história de apenas uma cidade, ao longo de um ano, mas oferece uma visão rara da desastrosa guerra de escolha da Rússia.

A lenta infiltração em Kostyantynivka — ponto-chave para o avanço de Moscou na região de Donbas, no leste da Ucrânia, e cuja ocupação foi reivindicada pelo Ministério da Defesa da Rússia em 3 de julho — escancara a persistência das forças do Kremlin e as baixas devastadoras que elas estão dispostas a tolerar para alcançar até mesmo os objetivos mais modestos.

Em 3 de julho, o Ministério da Defesa divulgou uma série de vídeos mostrando tropas russas em vários pontos do centro da cidade, agitando bandeiras russas, para reforçar a alegação de que haviam tomado o local.

Essa afirmação falsa — contradita por vídeos recentes, relatos de tropas ucranianas e mapeamentos independentes das linhas de frente — foi uma das várias feitas nos últimos meses por líderes russos.

Eles buscavam sugerir que o avanço no campo de batalha era maior do que a realidade, talvez para convencer o público interno ou seus homólogos na Casa Branca de que a campanha militar não havia estagnado.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, rapidamente apontou a falsidade da alegação e desafiou o presidente russo, Vladimir Putin, a encontrá-lo na cidade para discutir a paz — caso ela estivesse, de fato, sob o controle de Moscou.

A CNN, que realizou reportagens em Kostyantynivka ou nas proximidades duas vezes no último ano, utilizou vídeos geolocalizados e depoimentos para mostrar o custo terrível e o ritmo lento dos avanços russos que antecederam a falsa alegação de captura da cidade.

O destino da localidade revela tanto a natureza obstinada e implacável da ofensiva de Moscou quanto a dimensão relativamente pequena das vitórias que o país reivindica, ainda que falsamente.

29 de julho de 2025

Mapeamentos realizados pelos analistas ucranianos independentes do grupo Deep State mostram forças russas nos arredores da cidade, tentando avançar para o seu interior.

A estrada de acesso à cidade já conta com redes de proteção para resguardar o tráfego de ataques de drones russos. Carros entram na cidade em segurança, e o mercado central permanece movimentado, apesar da ameaça ocasional de drones.

Uma equipe da CNN que visitou o local em julho do ano passado encontrou ruas repletas de civis, embora alguns relutassem em ser filmados — talvez por receio de uma futura ocupação russa e de sofrerem represálias por “colaborar” com a mídia ocidental.

Novembro de 2025

Já nos primeiros meses de inverno, o mapa mostra a chamada “zona cinzenta” — território disputado — avançando em direção ao centro da cidade. A ofensiva aérea russa havia se intensificado. Vídeos divulgados pelas forças ucranianas mostram prédios de apartamentos em chamas na região sudoeste da cidade.

Além disso, um drone russo registra os danos causados ​​por um ataque aéreo ocorrido a poucas ruas dali.

No entanto, os ucranianos permanecem firmes no centro da cidade; o Estado-Maior chegou a publicar um vídeo de um oficial posando tranquilamente na Praça da Vitória, em novembro.

Imagens russas daquela época mostram o que parece ser a perspectiva da infantaria a partir do pátio de um conjunto habitacional, próximo à Rua Gromov — novamente na periferia sudoeste da cidade.

Janeiro de 2026

É no final do ano que a Rússia parece dar seus maiores passos à frente, conforme registrado pelo Deep State na primeira semana de 2026. A zona cinzenta alcançou a cidade, e duas frentes russas distintas aproximam-se de suas principais vias de acesso.

Dois fatores-chave explicam a extensão do avanço de Moscou. O alcance dos drones de ataque — sejam os pequenos modelos FPV (visão em primeira pessoa), que visam indivíduos ou veículos, ou as máquinas de maior capacidade de carga, que atingem edificações — aumenta mês a mês, reduzindo gradualmente a área de segurança ao redor de Kostyantynivka e dificultando sua defesa pela Ucrânia.

Mais importante ainda: nessa época, autoridades ocidentais começaram a corroborar as alegações ucranianas de que a Rússia sofria até 35 mil baixas (mortos ou feridos) no campo de batalha a cada mês.

Esse número impressionante — resultado tanto da estratégia ucraniana de eliminar o maior número possível de soldados inimigos com drones quanto do uso contínuo, por parte de Moscou, de táticas brutais de ataque em “ondas” — evidencia o provável custo humano dos pequenos avanços russos nos arredores de Kostyantynivka.

Os vídeos publicados em janeiro mostram, contudo, que as forças de Kiev continuam firmemente posicionadas no centro — próximo à estação ferroviária, palco de intensos combates — ao final do mês.

Em fevereiro, o fósforo branco — uma munição terrível cujo uso em áreas residenciais é considerado ilegal pelo direito humanitário — cai sobre os prédios de apartamentos do sudoeste, sugerindo que os combates mais pesados ​​ocorrem na periferia da cidade. Ainda assim, os ucranianos publicam vídeos mostrando que permanecem na região centro-sul da cidade.

Nesta altura, fica claro que grande parte da população civil já partiu e a cidade está sendo lentamente reduzida a escombros. Um vídeo publicado em abril mostra que locais onde tropas ucranianas circulavam tranquilamente em novembro foram reduzidos a esqueletos de edifícios e ruínas, levantando questões sobre o valor econômico das áreas pelas quais a Rússia luta.

Maio de 2026

A CNN vivenciou em primeira mão a mudança no alcance dos drones russos em maio, durante uma árdua caminhada de cinco horas de retorno pela estrada de acesso principal a Kostyantynivka — um trajeto que, um ano antes, podia ser percorrido com segurança sob a proteção de redes de pesca.

Em maio, as redes ainda estavam lá, mas a estrada estava repleta de destroços carbonizados de carros atingidos por drones e de robôs automatizados usados ​​para levar suprimentos à linha de frente.

A caminhada de cinco quilômetros pelo trecho que ficou conhecido como “Estrada da Vida” — partindo da cidade vizinha de Druzhkivka em direção aos arredores de Kostyantynivka — foi feita quase inteiramente a pé; durante o trajeto, as tropas ucranianas precisavam se esconder constantemente na vegetação, torcendo para que os drones de ataque russos que sobrevoavam a área passassem direto.

Veículos na estrada haviam se tornado alvos, e a equipe passou pelo carro incendiado onde um oficial da unidade fora morto poucos dias antes.

O perigo crescente na estrada — mesmo com as tropas ucranianas ainda presentes no centro da cidade — refletia o maior alcance que os drones russos haviam adquirido nos meses anteriores, bem como os avanços tecnológicos de ambos os lados que reconfiguravam constantemente o campo de batalha.

O mapa mostra a “zona cinzenta” agora avançando para o interior da cidade e as forças russas efetivamente presentes na região sudoeste.

Julho de 2026

Dois meses depois, os militares russos alegariam ter tomado a cidade e publicariam vídeos como suposta prova disso. No entanto, o mapa de 3 de julho deixa claro que eles ainda precisavam consolidar o controle sobre partes significativas dela.

Uma semana após a suposta tomada, o 19º Corpo de Exército da Ucrânia publicou um vídeo no Telegram mostrando seus drones atacando forças russas entre os escombros da cidade e matando um “invasor”.

A publicação dizia: “O inimigo pinta vitórias nas telas, mas, na prática, é destruído por nossas unidades. A cidade resiste. A defesa continua”.

Essa é a lição de Kostyantynivka: a Rússia pode estar tomando a cidade lentamente, a um custo altíssimo. Mas ela ocupa apenas 66 quilômetros quadrados, enquanto o território da Rússia soma 17 milhões de quilômetros quadrados.

Não está claro exatamente quantas vidas russas ou ucranianas foram perdidas nos combates. No entanto, imagens da cidade mostram que ela foi reduzida a escombros.

A cidade possui certa importância estratégica, uma vez que sua tomada permitiria às forças de Moscou avançar em direção aos últimos grandes centros populacionais da região de Donbas — Kramatorsk e Sloviansk — tão cobiçados por Putin.

Contudo, a conquista dessas duas cidades provavelmente envolveria combates igualmente brutais e prolongados, fazendo com que mesmo uma estimativa otimista para alcançar esse objetivo de guerra fundamental de Moscou aponte para um horizonte de, no mínimo, um ano.

Um ano de violência aterradora em Kostyantynivka agrava a fragilidade central do plano de guerra de Putin: por quanto tempo ele conseguirá manter a confiança da opinião pública russa em um conflito no qual até as menores conquistas precisam ser falsamente alardeadas, enquanto, na realidade, permanecem inalcançáveis?

Fonte: CNN