Mulheres do sistema prisional de PE transformam experiências de violência em cartas no livro “180: Antes que seja tarde demais”

Obra reúne textos produzidos por mulheres da Colônia Penal Feminina do Recife durante oficina literária sobre violência de gênero.

Cartas para quem foram, para quem são e para quem ainda querem ser. Foi a partir desse exercício que mulheres privadas de liberdade da Colônia Penal Feminina do Recife (CPFR) transformaram memórias e experiências de violência em textos que agora chegam ao livro “180: Antes que seja tarde demais”. A obra foi lançada nesta terça-feira (22), na unidade prisional, localizada no Engenho do Meio, no Recife.

A publicação é resultado de uma oficina literária realizada pelo Governo do Estado, através das secretarias de Administração Penitenciária e Ressocialização de Pernambuco (Seap-PE) e a de Educação (SEE), juntamente com o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a Editora Giostri. O objetivo da ação, desenvolvida na Escola Estadual Olga Benário Prestes, localizada dentro da unidade prisional, foi discutir a violência contra a mulher a partir das experiências e dos olhares das próprias participantes.

Durante os encontros, as internas foram convidadas a escrever três cartas destinadas a si mesmas em diferentes momentos da vida. A oficina combinou livros, músicas, vídeos e documentários sobre o tema, além de rodas de conversa em que elas compartilharam experiências pessoais. Segundo Allayni Vasconcelos, supervisora de educação da unidade e uma das organizadoras da obra, os encontros possibilitaram que as participantes reconhecessem diferentes formas de violência presentes em suas próprias histórias. “Tivemos histórias de abuso, assédio, violência física, psicológica, financeira, as mais diversas violências. Situações que, antes, elas nem nomeavam como violência. Então reconhecer e nomear o que é violência é uma forma de enfrentar.”

A oficina “180: Antes que seja tarde demais”, nome que faz referência ao Ligue 180, canal de atendimento e denúncia relacionado à violência contra a mulher, surgiu a partir de experiências anteriores de produção de livros com pessoas privadas de liberdade.

Alex Giostri, que atua no Comitê Interinstitucional de Fomento e Acompanhamento da Política Nacional de Cultura no Sistema Prisional e na Editora Giostri, explica que, antes da oficina na unidade feminina do Recife, um projeto chamado Mentes Literárias já havia desenvolvido publicações em outras unidades prisionais de Pernambuco. A partir dessas experiências e de uma ação de doação de livros para a Colônia Penal Feminina do Recife, surgiu a proposta de desenvolver uma publicação com as mulheres custodiadas na unidade.

“O intuito maior de uma publicação literária com pessoas privadas de liberdade é dar protagonismo a essas pessoas que estão, de certa maneira, invisibilizadas por conta de um sistema prisional. A produção possibilita que essas pessoas tenham espaço para contar suas próprias histórias”, aponta Giostri.
A escrita das cartas, segundo ele, também permite um exercício de reflexão sobre a própria trajetória. “Ao escrever para si mesma em diferentes momentos da vida, a participante passa a estabelecer um diálogo com suas experiências, com o presente e com aquilo que deseja construir depois do período de privação de liberdade”, destaca.

Para a interna M.D, 35 anos, uma das participantes da oficina, a publicação também representa uma oportunidade para que as histórias vividas dentro do sistema prisional sejam conhecidas para além dos crimes pelos quais as mulheres foram condenadas. “Eu acho que ele dá voz às pessoas aqui dentro. Ele faz com que as nossas histórias se propaguem, que as pessoas conheçam nossas dores, nossos sofrimentos e que nem tudo seja só um crime. Às vezes, são problemas sociais que nos trouxeram até aqui”, afirma.

Para ela, ter a própria história registrada em uma publicação também significa deixar uma marca que poderá ser conhecida por outras pessoas. “É uma sensação de estar sendo imortalizada em páginas. As pessoas sempre vão poder escutar, vão saber que eu escrevi alguma coisa, que eu estive lá”, conta.

Participaram da inauguração representantes da Seap, Secretaria de Educação, Defensoria Pública, Ministério Público do Trabalho, Tribunal de Justiça, Conselho Penitenciário e da Editora Giostri.