A expansão do mercado imobiliário de Petrolina (PE) está levando construtoras e incorporadoras a uma procura crescente pelo mercado de capitais e por outras soluções de gestão patrimonial. O movimento se insere numa transformação mais estrutural das fontes de financiamento do setor de imóveis no Nordeste e, no caso do Vale do São Francisco, vem atraindo para a região desde assessorias de investimento até novas operações do setor bancário, que chegam para atender a uma demanda que vai desde a administração do caixa à captação de recursos para novos empreendimentos.
“A partir do momento em que os players do setor ampliam o número de empreendimentos e passam a trabalhar com projetos de diferentes padrões, aumenta também a necessidade de alocação dos recursos disponíveis ao longo de todo o ciclo do negócio, de uma forma que garanta não apenas a melhor gestão, mas também rentabilidade”, explica o sócio-fundador da Pequod Investimentos, Diogo Velho Barreto.
Segundo ele, a construção civil já representa 7% das operações da Pequod em Pernambuco, evidenciando a importância do setor para a atividade da empresa, que vem expandindo a atuação, antes concentrada nas capitais, para cidades médias do interior nordestino, entre elas Petrolina.
As mudanças no município, localizado a 715 km do Recife, ocorrem em um ambiente no qual o próprio financiamento imobiliário vem passando por uma reconfiguração. A menor disponibilidade de recursos da poupança para o crédito habitacional e a maior utilização de instrumentos do mercado de capitais, como Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras Imobiliárias Garantidas (LIGs), vêm ampliando as alternativas de financiamento para o setor. Ao mesmo tempo, a necessidade de capital ao longo do ciclo dos empreendimentos coloca a gestão patrimonial num patamar muito mais estratégico para a atividade.
“Nesse cenário, a relação das empresas com o sistema financeiro deixa de estar concentrada exclusivamente na obtenção de crédito bancário. Dependendo da etapa do empreendimento e da finalidade dos recursos, a empresa pode precisar de financiamento para concluir uma obra, antecipar receitas ou adquirir um novo terreno e, paralelamente, administrar recursos que ainda não serão utilizados na operação”, explica o assessor de investimentos Samuel Silva, responsável pelo atendimento da Pequod na região. “A gestão financeira passa, assim, a considerar conjuntamente liquidez, prazo, risco e rentabilidade”, acrescenta.

A expansão imobiliária de Petrolina ajuda a explicar por que esse movimento ganha força no Vale do São Francisco. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do município passou de 293.962 habitantes no Censo de 2010 para 386.791 em 2022, crescimento de 31,6%, o maior entre os principais polos urbanos de Pernambuco. No mesmo período, o número de domicílios particulares ocupados aumentou 59,8%, de 80.338 para 128.380 unidades.
O crescimento populacional e a formação de novos domicílios vêm acompanhados do incremento e da diversificação da oferta imobiliária. Segundo estudos da BCB Inteligência, Petrolina poderá alcançar 458.182 habitantes em 2031, o que se reflete em uma demanda por diferentes produtos da construção civil.
No mercado atual, a procura, antes mais concentrada em empreendimentos de alto padrão na orla do Rio São Francisco, vem se distribuindo também entre projetos de médio padrão, incluindo unidades na faixa de R$ 700 mil a R$ 1 milhão. O movimento alcança ainda a habitação popular: as contratações do Minha Casa, Minha Vida cresceram 141,2% no município entre 2020 e 2025.
Para Samuel Silva, a expansão do setor aumenta a complexidade da administração financeira das empresas. “O empresário local do setor imobiliário estava acostumado a pensar em terreno, obra, venda e recebimento. Mas, à medida que os negócios mudaram de escala, a gestão dos recursos passou a demandar soluções mais adequadas a essa nova realidade e mais alinhadas ao modelo atual de funding da construção”, afirma.
Liquidez ainda é prioridade
O assessor afirma que, embora ainda prevaleça, em certa medida, a preferência dos empresários do ramo na região por instrumentos conservadores, devido à necessidade de disponibilidade imediata dos recursos para aproveitar oportunidades, esse comportamento vem se alterando.
“Empresas que compram terrenos, iniciam obras e avaliam continuamente novos projetos precisam preservar capacidade de movimentação do caixa. Por isso, produtos como CDB, Compromissada e Fundos de Investimentos, especialmente aqueles com liquidez compatível com as necessidades do negócio, seguem entre as alternativas mais procuradas atualmente”, destaca.
“Grande parte desses recursos vem do lucro dos empreendimentos e continua sendo mantida nesse tipo de produto. Mas há uma diversificação gradual da carteira do empresário, com a busca de soluções mais sofisticadas, como debêntures, fundos multimercado, ETFs de renda variável e até investimentos internacionais, dependendo do horizonte de utilização dos recursos”, detalha.
Essa reconfiguração está inserida na mudança do funding do próprio setor imobiliário no país, que tem se refletido de forma particular no Nordeste, considerando a relação tradicional do mercado regional de imóveis com o sistema bancário e a poupança. Dados da Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) mostram que o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimos (SBPE) registrou captação líquida negativa de R$ 2,9 bilhões no quarto trimestre de 2025.






